Como deixar de ser avatares de nós mesmos?

Hoje, as videoconferências não são apenas para eventuais reuniões com pessoas geograficamente distantes ou para a realização de cursos EAD. Agora, é audiovisual para ver a família, os amigos, o pessoal do trabalho, o personal trainer, o terapeuta, o cantor preferido, os representantes políticos, os jogos esportivos e por aí vai. Estamos virando seres em telas de todos os tamanhos, com alta conectividade ou baixa resolução, vai depender do humor da nossa internet. Nossas personalidades estão se expandindo para esse ambiente virtual, somos avatares de nós mesmos.

Segundo dados da CNN Business, a utilização do Google Meet é 25 vezes maior do que em janeiro deste ano. Esse crescimento é similar em outras plataformas e é explicado por dois motivos: o primeiro é a impossibilidade de atender os clientes presencialmente, seguido da incorporação de diversos funcionários às plataformas, que antes tinham o uso mais comum entre diretores e líderes.

Os fóruns de discussão e as redes sociais que serviam de escape à realidade também não são mais espaços tão atrativos. Não há mais a dualidade do real e virtual, estamos todos vivendo num único universo hiperconectado. E fica um desafio para todos: como desenvolver o nosso lado humano nesse híbrido indissociável?

O cotidiano caótico ao vivo

Alguns meses atrás, achávamos encantadoras as invasões repentinas dos pets e das crianças pequenas em nossas calls. Aquele riso espontâneo e a empatia instaurada com facilidade. Mas e agora, tantos meses depois? Ainda achamos graça dessas interrupções? Ainda somos tolerantes a  vizinhos fazendo obras em plena pandemia? Conseguimos conciliar nossas vivências forçadas com os membros da família? E a nossa lombar, como vai?

Em meio ao caos, novos comportamentos estão surgindo, você sabia que ver pessoas dormindo ou estudando é uma nova tendência nas lives? Curiosidade pela vida real, busca por inspiração ou voyeurismo? Uma matéria divulgada no Terra traz dados impressionantes de pessoas que assistem ao sono de outras ou se sentem amparadas ao estudar na “companhia” de outros estudantes. No Brasil, a influenciadora Tainá Costa conseguiu que sua soneca fosse fiscalizada por mais de 20 mil seguidores.

Longe de tendências bizarras, também temos a nossa privacidade invadida e compartilhada com clientes e colegas de trabalho, a dificuldade de prestar atenção em uma tela 2D por horas a fio, o desconforto de ligar a câmera, a falta de vontade de escutar áudios intermináveis. Estamos nos adaptando a um novo tipo de comunicação, não são mais diálogos, são monólogos dessincronizados. Estamos despidos de nossas tradicionais realidades, estamos reaprendendo a conversar, precisamos, com urgência, nos reinventar.

 E onde está a humanização como um todo?

 Antes de entrarmos na nossa micro realidade de desenvolver melhor nossos times à distância, precisamos pensar no cenário global. Simona Violetta Yagenova, professora pesquisadora da FLACSO, da Guatemala, no artigo “Los desafíos del mundo del trabajo” traz dados impressionantes da pandemia e reflexões bastante humanas.

Ela classifica essa como uma crise sem precedentes, pois 81% da força de trabalho mundial foi impactada pelo encerramento parcial ou total das atividades econômicas (OIT, 2020 c; OIT 2020 a) e uma perda de 305 milhões de empregos foi registrada durante o segundo trimestre de 2020.

Yagenova nos amplia o olhar para pensar que, com a pandemia, o mundo do trabalho está sendo estruturalmente abalado em diferentes dimensões, tendo repercussões nas possibilidades de ascensão social, identidades, tendências migratórias, práticas sociopolíticas, formatos organizacionais e debates ideológicos.

A crise do coronavírus não é algo que passa distante dos nossos olhos como apenas uma notícia na televisão ou no jornal, precisamos entender que impacta a vida de todos, não só do nosso núcleo familiar, da nossa empresa, mas da sociedade e do mundo e precisamos nos perguntar, como indivíduos, como instituições  e como humanos: o que podemos fazer para impactar positivamente nesse cenário?

 Mobilização e integração no trabalho

Todos estamos passando pela mesma dificuldade de adaptação, mas é sobre os líderes das organizações que recai o peso de orientar a todos, enquanto ajusta as velas do seu próprio barco. Talvez, entender que esse peso não precisa ser carregado sozinho seja uma das coisas mais importantes no momento. Dialogar com sua equipe, compartilhar os desafios com consultores e agir guiado pelo coletivo pode ser mais inteligente nesse cenário de incertezas. Dominic Barter, pesquisador de Comunicação Não-Violenta, tem uma fala muito assertiva sobre saber ouvir e acolher pontos de vista diferentes: “Uma perspectiva diferente da minha pode me salvar de ter apenas a minha opinião”.

Então, salve-se de sua visão limitada, amplie os seus conhecimentos, seja empático ao escutar o outro. A liderança só consegue o engajamento quando tem uma comunicação com propósito. É o conceito walk the talk, andar em sintonia com o que você diz, ou seja, fazer o que se fala. E só é possível construir esse discurso coerente quando se está em um caminho que você acredita, alinhado com a organização, quando a equipe sente e percebe essa transparência, despertando nos liderados a vontade de fazer, de transformar, de dar o seu melhor pelo time.

É claro que sem os espaços físicos, sem as possibilidades de um almoço descontraído, daquele rápido feedback no cafezinho ou um happy hour para celebrar uma conquista, tudo fica mais limitado, diferente do que estávamos acostumados. Não há mais a possibilidade de demonstrar status ou reforçar hierarquias por meio dos símbolos do poder como salas no escritório, vagas de estacionamento, tecnologias, vestuário e outros abordados no artigo do nosso sócio da Olivia Argentina, Ezequiel Kieczkier.

Precisamos, mais do que nunca, ser essencialmente humanos. Ter a nossa capacidade de conexão e de vínculos fortalecidos em um novo ambiente, o ambiente virtual. A comunicação é que constrói esse relacionamento, não é algo separado da realidade, seja ela virtual ou não.

Desenvolver novas competências: as tão faladas adaptabilidade, agilidade e resiliência e reconhecer habilidades coletivas. Esses termos precisam sair dos links das notícias, das respostas de pesquisas e serem empregados no nosso dia a dia. Ownership e self learning não podem mais ser expressões em inglês vazias de significado. É preciso que as organizações ofereçam espaços de diálogo, de autonomia e de aprendizagem para seus colaboradores. Que a empresa seja formada de humanos, humanos que estão sempre em desenvolvimento para serem, cada vez mais, humanos.

Reynaldo Naves, sócio OLIVIA Brasil