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Riscos e oportunidades da inovação no sistema financeiro

Era só uma questão de tempo para que o Facebook entrasse no mercado financeiro. Em junho, a gigante de tecnologia anunciou que está desenvolvendo uma carteira digital para funcionar dentro de seus aplicativos de mensagens, o WhatsApp e o Messenger, e também num aplicativo separado. A previsão de lançamento é para o ano que vem, por uma fundação sem fins lucrativos com sede na Suíça. Será possível fazer transferências entre indivíduos, empréstimos e pagar contas, compras e transporte público. Para comparação, quase 90% dos usuários ativos do WeChat – o Whatsapp da China – usam a função de pagamentos lançada pela empresa em 2013.

A despeito das questões regulatórias que o Facebook terá de enfrentar, e do tempo que deve levar para o serviço chegar por aqui, será que os usuários latinos vão aderir? Não tenho dúvidas! Os brasileiros, por exemplo, são um dos povos que mais passa tempo em redes sociais no mundo. E optar pela praticidade é uma característica inata do ser humano – por instinto de sobrevivência, nossos cérebros querem economizar energia.

Também não tenho dúvidas sobre os altos riscos de segurança. Vide o peso do Facebook na definição da eleição americana de 2016, com a violação de dados de usuários causada por uma empresa de análises cliente da rede social. Vide o recente vazamento de conversas de autoridades brasileiras por hackers usando o aplicativo de mensagens concorrente Telegram.

Talvez um bom sinal, em meio a tudo isso, é a inevitável pressão que a notícia traz para o mercado financeiro inovar ainda mais – e rápido. Segundo uma pesquisa da McKinsey, o conceito de experiência do consumidor tem ganhado atenção do setor no Brasil. Além disso, já temos 400 FinTechs atuantes no país, e pelo menos quatro unicórnios do segmento: Stone, Nubank, PagSeguro e XP valem mais de um bilhão de dólares cada uma delas. O Nubank, inaugurado há seis anos, e a Stone, há sete, têm hoje o mesmo valor de mercado que empresas centenárias que são um exemplo de resistência à crise econômica dos últimos anos, como a Lojas Renner.

PwC ouviu 1.300 profissionais numa pesquisa global sobre fintechs em 2017 e concluiu que mais de 80% dos executivos de firmas estabelecidas de serviços financeiros acreditam que suas empresas estão em risco. Eles estão cada vez mais preocupados em perder receita para empresas mais inovadoras. Para sobreviver, não existe outra opção: é mudar e se adaptar aos novos tempos.

Eu prefiro olhar para o copo meio cheio: o Brasil é um dos pioneiros no mundo em inovação no sistema bancário. Os tempos difíceis, de hiperinflação da noite para o dia, motivaram nossos bancos a inovar e exportar tecnologia. Naquele tempo, a grande questão da segurança estava nos cartões chipados e a escalabilidade dependia da viabilidade econômica das maquininhas de cartão de crédito. Por muitos anos, o número de empresas de adquirência cabia numa mão. Hoje, vemos um boom neste segmento –  é o que mais cresce entre as fintechs segundo as pesquisas.

Entender e acompanhar o avanço das novas tecnologias, com QR codes, moedas virtuais, carteiras digitais, na velocidade do mundo atual pode ser um desafio e tanto para muitos executivos. Num próximo movimento, acredito na reinvenção dos programas de relacionamento com o cruzamento de moedas digitais e integração de carteiras.

Mas antes de se entregar completamente ao futuro e decidir mobilizar todos os esforços para inovar radicalmente é importante se certificar que as necessidades atuais dos clientes — e da população como um todo — já estejam sendo atendidas. Se olharmos para o presente temos muitas oportunidades para inovar no sistema bancário. Para citar algumas:

 

– 25% dos brasileiros economicamente ativos ainda não têm conta em banco — nos Estados Unidos somente 5% estão “desbancarizados”

– a penetração de crédito no Brasil é menos da metade das nações desenvolvidas. Mas maior que Colômbia, Argentina, México e Índia

– 47% dos pagamentos feitos no Brasil ainda são em dinheiro vivo

 

Neste momento veloz e volátil, de ambiguidades, incertezas, sólidos bancos têm se unido a startups e especialistas em estratégia para, com suas inteligências complementares, atender melhor o cliente e contribuir para uma sociedade mais próspera. Para citar alguns exemplos:

Itaú lançou produtos específicos: há uma linha de microcrédito dedicada a empreendedores negros, um programa de empreendedorismo feminino, um edital para projetos LGBTs. Na solicitação de um financiamento, a composição de renda familiar pode ir muito além do formato tradicional de família homem-mulher-filhos.

BIA, inteligência artificial lançada pelo Bradesco no final de 2016, se tornou referência mundial no setor por sua integração de internet banking aos aplicativos de mensagem e assistente virtuais dos smartphones.

Santander anunciou recentemente que está ampliando a atuação de sua fintech Superdigital para o Peru, Colômbia, Argentina, Chile, Uruguai e México. Nela, qualquer pessoa com mais de 18 anos que tenha um documento de identificação — no Brasil é o CPF — para abrir uma conta, tudo pela internet. Sem comprovação de renda, ou análise descore de crédito.

Bancos públicos também precisam estar atentos ao tema. O acesso facilitado à transferência tecnológica permite um universo de possibilidades. Bem como a solidez e atratividade financeira deste segmento. A partir da expertise de quase duas décadas da consultoria multilatina Olivia — que temos a honra de inaugurar no Brasil, com um time de sócios conectados à inovação — um grande e tradicional banco público na Argentina passou por um processo transformador rumo à transformação digital.

A partir de um alinhamento estratégico do corpo diretivo, impulsionamos os desafios do banco e as frentes de inovação e ajudamos a desenhar uma nova governança da inovação. Reorganizamos os times em diversas células, ao mesmo tempo que aplicamos treinamentos e formação em metodologias ágeis e de gestão da inovação. Nesse processo, apoiamos a geração de pipelines de projetos e construímos business cases esclarecedores para cada oportunidade selecionada.

Com toda a equipe capacitada e mobilizada e os objetivos dos projetos bem definidos, o banco lançou diversos novos produtos e serviços inovadores, alinhados com as necessidades dos clientes. Os novos processos e conhecimentos adquiridos levaram a cultura da instituição a um patamar mais inovador e alinhado com o mercado atual, percebido e contribuído por cada uma das pessoas que participou do projeto de governança da inovação.

O aspecto humano é com certeza o maior diferencial do reconhecido sucesso de organizações de vanguarda. São as relações entre as pessoas, a complementaridade dos conhecimentos e visões estratégicas compartilhadas que tornam mais eficaz e perene a geração de inovações. Ou por que, então, que muitos dos competidores com a mesma capacidade financeira não prosperam? 

E se pensarmos nos bancos públicos brasileiros? Quais as histórias de inovação e as oportunidades que podemos contar? Nesta retomada da economia, as oportunidades estão abertas para nossas empresas de serviços financeiros que estiverem atentos às necessidades dos clientes e às necessidades humanas de suas equipes.

Estou curioso com as respostas e animado para conversar sobre o assunto.

Este é o momento de investir não apenas em tecnologias disruptivas, mas no desenvolvimento de capital humano inovador. A inovação se traduz em hábitos, e a mudança de hábitos começa por estabelecer novos processos e ressignificar os antigos.

 

Por Reynaldo Naves, socio de Olivia Brasil